O mundo é dos idionantes

Anselmo Heidrich
7 min readMar 31, 2019

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The Horse ( https://pixabay.com/photos/the-horse-pasture-land-meadow-horse-268463/ ).

Idionante é uma mistura de idiota com ignorante, termo que acabei de inventar. Compartilhem que vai pegar.

Depois de três dias sem publicar nada no Facebook porque fui acusado de “discurso de ódio” por um idiota em um grupo “Esquerda X Direita” que defendia a tese de que o “terrorismo branco racista” tinha que ser combatido, ao que redargui que todos os terrorismos tinham que ser combatidos, todos sem exceção, fossem os de nativos ou de imigrantes, ele me classificou como um hater junto ao algoritmo da rede social e daí pronto, direito a defesa ainda não é uma atribuição de Inteligência Artificial. Dane-se e vai rachando…

Como não estava podendo praticar minha esgrima verborrágica na internet (porque no Twitter sou peixe-pequeno), fui a campo. Pra dizer a verdade, não. Eu fui convidado a um aniversário de um amiguinho de escola do meu filho, o garoto tinha 7 anos e aí sobram pais de todos os tipos que mal se conhecem, mas lá estava o W., o típico advogado trabalhista, o pior tipo de advogado, daqueles que enchem os pulmões de ar e nós pensamos “lá vem, o cara vai cagar pela boca” e não deu outra.

Após inúmeras sessões elogiando amigos de faculdade que plantavam maconha em casa e entoar odes à governos “comprometidos com a sociedade” que já legalizaram o produto (Portugal, Uruguai, Holanda), eu me meti no papo e falei como funcionava em estados como o Colorado, como tudo vei sob o rótulo de “medicinal” e como isto se tornou um comércio lucrativo, mas que eu, no fundo achava que o uso recreativo poderia ser aprovado desde que feitas algumas regulamentações necessárias. Bom, o sujeito me surpreendeu pela falta de coerência ao se dizer contra a legalização de algo que ele elogiava em produtores-amigos seus.

Disto, o passo seguinte foi falar do tráfico, do crime organizado etc. E, como não poderia deixar de ser, das milícias e aí, vocês sabem onde um advogado trabalhista quer chegar, não sabem? Como bom eleitor do Ciro Gomes e que por falta de opção deve ter apertado a tecla sob o rosto de Haddad, ele estava preparando o meio de campo para criticar o governo eleito. Não demorou…

Falei sobre um caso de extorsão que sofri ao viajar certa vez ao Rio de Janeiro, “aquele país (ato falho) a fronteira entre o que é lícito e não é, é muito tênue”. A mesma polícia, que representa o mundo legal é recorrentemente acusada de corrupção e a milícia faz parte dela. No entanto, um presidente da escola de samba Mangueira cria um samba-enredo falando de Marielle, a vereadora assassinada pela milícia também tem ligações com o tráfico, os bicheiros e cumpre prisão domiciliar. Bicheiros que, diga-se de passagem, têm ligações com… A milícia!

— Ex presidente! — disse e eu aceitei, mas confirmando agora, parece que ainda é. Detalhe a parte, ele arrematou:

— Mas a milícia chegou à presidência (da república). É verdade…

— Bem, se eu tivesse que votar hoje faria oposição ao Bolsonaro, mas na eleição era votar nele ou na 2ª maior máfia do mundo, o PT (só perdendo para a Máfia Russa).

— Não vou discutir milícia contigo, Anselmo. Vamos falar de criança, do tempo…

— Mas tu está sendo contraditório, W. Foi tu quem começou a falar em milícia.

Cá entre nós, isto vindo de um advogado choca, o cara ou profissional vá lá que deveria ter um compromisso mínimo com a verdade, tudo que se sabe é que o filho do Jair Bolsonaro, o Eduardo namorou a filha de um dos milicianos acusados que morava no mesmo condomínio. Este link não é prova alguma. Que petistas façam isto, que estabeleçam uma causalidade digna de idiotas com sua “imaginação sociológica”, ok, mas um cara que deveria argumentar em cima de fatos?

Os sinais já tinham surgido acima das orelhas do ungulado, mas fui incapaz de detectar, talvez porque eu sofra de uma síndrome professoral que me cega para o inexorável muro da ignorância.

— Ninguém me convence de que essas grandes empresas, Bayer etc. não tem droga cultivada no norte do Brasil.

— Para quê? (E lá estava eu tocando para louco dançar…)

— Porque daí eles criam uma droga poderosa para vender.

— Quer dizer, para depois oferecer a cura de um medicamento que eles próprios têm? (Já ouvira esta sandice a guisa de argumento.)

— Não, para vender a droga mesmo.

O cara era mais burro do que eu poderia supor. Uma das indústrias mais ricas do planeta, talvez só menos do que a petrolífera e de armamentos trocaria o complexo químico-farmacêutico, uma mera fachada, para lucrar com uma rede de aviõezinhos subindo e descendo morro no país.

— Bom, tu tem algum indício disto?

— Hã? Não entendi o que quer dizer?

— Indício, fato, algo que sugira um caminho investigativo, processo, fato, dado dentro de um processo, realidade empírica…

Quando olhei para o rosto asinino do Bacharel em Direito percebi que se ele tropeçasse, teria que substituir o derivado de cevada em suas delicadas e adiposas patas por um chumaço de alfafa no balde pendurado em seu pescoço. Não forcei a barra. Mas o bacharel não dava trégua aos filósofos gregos e psiquiatras que fossem mapear os intrincados corredores da massa encefálica putrefata dentro da caixa craniana…

— E na África, essas grandes empresas testam seus medicamentos na população pobre. Por isso não deixam a África ser rica, porque querem uma mão de obra barata para explorar.

Eu já estava tonto de tanto estrume em forma de fonema, mas não desisti…

— W., esse teu argumento aí pode ser então utilizado para qualquer empresa que queira produzir drogas no país, já que é tão vasto. Por que tem que ser uma multinacional alemã no Pará? A África é um vasto continente, cinco vezes maior que o Brasil, há países com mais acesso à internet do que aqui, uns 90%, enquanto outros mal chegal aos 15%. Não dá para generalizar.

— Mas eu tenho um cunhado que vai pro Senegal, lá é terra de ninguém…

— Assim como em certas áreas do Brasil, assim como eram regiões e países hoje desenvolvidos décadas e séculos atrás. Agora, se governos permitem que se façam testes de medicamentos em sua população é um problema ético, mas não legal, se seus governos permitem.

— Sim, são os governos…

Digamos que, em respeito à dúvida sincera, ele tenha razão neste ponto, qual o percentual disso, se é que chega a tanto? Não que não seja grave, mas não há fonte, dados, nada. Suspeitas e mais suspeitas, declarações bombásticas, ênfase nas palavras, mas nada que se aproxime à descrição de um caso específico. Mas não é bizarro que um sujeito pense que as nações são pobres porque se sujeitam a coisas desse tipo — testes farmacêuticos em suas populações — e não que se submetam a isso porque seus governos assim o permitem e estes vencem porque resultam da legitimação de sua própria população? É conveniente acusar o resultado como sendo causado por um agente externo e sempre eximir de responsabilidade o agente interno, por mais injusta e desigual que seja a correlação de forças políticas dentro de sua sociedade. Mas é de dentro que vem o problema.

Dias atrás eu relatei outro caso, de um operador financeiro que abusava do alarmismo ambiental para formar uma conta de investidores, eu suponho. Ganhava com isso e havia conflito de interesses no que dizia. Declarações como “não há mais peixe no oceano” beiravam o delírio. Hoje, foi um advogado trabalhista que justifica sua posição na sociedade regando mentiras em torno de um espantalho chamado “grande empresa”. Na verdade, a parcela mais inútil desta nossa sociedade pertence aos que criam leis e regulamentos apenas para vender facilidades legais através de morosos processos jurídicos e é compreensível que gente assim nutra um grande ódio por um governo como o de Bolsonaro, que tenho minhas críticas, mas também elogios por feitos como ter eliminado entulhos burocráticos como o Ministério do Trabalho. Vocês, então já podem imaginar quando disse que meu candidato ideal seria João Amoedo e que a posição do mesmo sobre as drogas era bastante sensata, “vamos antes observar como serão as experiências de liberação em curso em outros países”. O que ele responde?

— Ele libera, ele quer negociar, ele negocia tudo.

— Sim, mas é isto que falta ao estado brasileira, noção de caixa, de fluxo, de receita, uma accountability.

Quando encerramos, “eu não vou discutir milícia contigo, Anselmo”, percebi que a massa de gado que esses partidos criaram no Brasil se encaixaria perfeitamente numa teoria marxista às avessas: eles têm sua superestrutura (ideologia, crenças, religião) como mera justificativa para sua estrutura (ganhos, economia, trabalho).

— Fazer o que, W.? Na próxima eleição será outro candidato, mas PT nunca mais.

Entenderam petistas, com todos os erros da administração Bolsonaro, também há acertos em meio a tudo isto (principalmente da ala militar). E eu espero, sinceramente, que em 2022, este homem se candidate à presidência:

https://youtu.be/ncXLqf7EgdU

Um sujeito com um discurso articulado como este faria o Brasil ser bem representado e dirigido. Quanto mais advogados trabalhistas detestarem, é porque estaremos no rumo certo.

Anselmo Heidrich

31 mar. 19

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